Fórum 2020 aprova meta nacional: erradicar febre aftosa em cinco anos

Entidades e lideranças da América Latina se movimentam para conseguir que o Brasil alcance o status de livre da aftosa sem vacinação em menos de cinco anos. A meta foi aprovada no Fórum 2020 – o Futuro do Brasil sem a doença, realizado no último dia 25 de novembro, na sede Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp).

O evento contou com a presença do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin; do secretário de Agricultura e Abastecimento do Estado de SP (SAA), Arnaldo Jardim; do presidente do Sistema Faesp/Senar (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural), Fábio de Salles Meirelles; além de membros de várias entidades representativas do agronegócio.

O principal objetivo do fórum foi apresentar algumas propostas sobre a intenção de retirar a vacinação ou diminuir sua aplicação. Sebastião Guedes, presidente do Grupo Interamericano para Erradicação da Febre Aftosa (Giefa), afirmou que 93% do rebanho da América do Sul estão livres de aftosa, graças ao trabalho do Centro Panamericano de Febre Aftosa (Panaftosa). No entanto, ele ressaltou que será necessária a união de toda a cadeia produtiva do Brasil e de outros países da América do Sul para erradicar definitivamente a doença dessa região.

Em conversa com a imprensa, Ottorino Covisi, diretor do Panaftosa, afirmou que o Paraguai tem avançado no combate à doença, após o último caso, ocorrido há cerca de quatro anos. “O principal fator de risco, no momento, é a Venezuela; recentemente, estivemos no país, para assegurar sua situação viral, porém, o acesso ainda é limitado a algumas áreas”, contou.

“Temos dialogado com pecuaristas e lideranças para estabelecer um cronograma que permita um resultado efetivo, a cada ano, e que, em 2020, possamos considerar a retirada da vacinação”, disse o presidente do Conselho Nacional da Pecuária de Corte (CNPC), Tirso Meireles.

Em sua opinião, a manutenção da vacinação contra a febre aftosa pode desestimular os investimentos realizados pelos pecuaristas nos últimos anos. “Somos eficientes da porteira para dentro, aumentamos a produtividade e cedemos muitos hectares à agricultura, mas temos que garantir rentabilidade para continuar na atividade; precisamos erradicar a aftosa”, argumentou Meireles.

FIM GRADATIVO

Entre os Estados brasileiros, somente Santa Catarina possui o status de livre de aftosa sem vacinação.  Líderes das entidades do setor garantem que o País tem condições de se tornar livre, com vacinação, já no próximo ano, e começam a detalhar projetos para o fim gradativo da campanha nacional de vacinação.

A proposta apresentada no fórum é que, das duas vacinações anuais aplicadas atualmente nos rebanhos, a primeira seja destinada aos bezerros, até completar dois anos e a segunda, anual, aos bezerros, garrotes e vacas leiteiras, por cerca de três anos.

Sebastião Guedes (Giefa) e Tirso Meireles (CNPC) apoiam a decisão do Paraná e Mato Grosso, de alcançar o status de Estados livres sem vacinar o gado. “A suspensão da vacina contra aftosa é uma tendência mundial, permite o acesso a novos mercados e com maior valor agregado, como Estados Unidos, Japão, entre outros”, comentou Guedes.

Na opinião de Antônio Jorge Camardelli, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), a discussão sobre a vacina pode até criar uma imagem não adequada para o Brasil.

“O negócio da vacina é o seguinte, bem simples, quem quiser tirar que tire, mas precisa ter segurança”, argumentou. Segundo ele, o apelo que se faz é sobre a necessidade de unir esforços para resolver os problemas.

“Preciso dividir esse problema com o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos Saúde Animal (Sindan), com o CNPC e com a Associação Nacional dos Confinadores (Assocon), que me fornece boi”, apontou.

RISCO X VALOR

De acordo com Meirelles, o valor agregado da carne bovina aumenta no mercado internacional quando os compradores consideram que não há risco de transmissão de aftosa.

“O Japão, por exemplo, chega a pagar US$ 20 mil por tonelada de língua bovina importada de países nos quais os animais não sejam vacinados, ante a média atual de US$ 4 mil a US$ 5 mil a toneladas, no caso do Brasil, que não tem acesso ao mercado in natura japonês”, ilustra Guedes.

Segundo, ele, há um mercado estimado em US$ 12 bilhões anuais, formado por Japão, Estados Unidos, México, Canadá e Coreia do Sul, mas o Brasil não tem acesso, por causa de barreiras comerciais com base na aftosa. “Dos vendedores de carne bovina do mundo, o Brasil é o único que pode garantir volume, qualidade e quantidade”, destacou.

Os EUA abriram espaço para a carne bovina in natura do Brasil este ano, mas os embarques ainda não ocorreram, em consequência de questões burocráticas do país e da pressão contrária por parte de pecuaristas norte-americanos.

“Estamos otimistas com a retomada das vendas para o mercado chinês, a perspectiva é excelente; em novembro, até dia 25, fechamos 22 dias com a China, com o total de 20 mil toneladas de carne”, afirmou Camardelli, que acabou de voltar  daquele país.

De acordo com o executivo, a entidade pretende abrir um escritório próprio na China, um mercado estimado em US$ 1 bilhão, em 2016.

“A gente volta inflamado da China, do sucesso do mercado, de ver o produto brasileiro na gôndola, de ver um espaço muito grande”, comemorou .

UM BILHÃO DE DOSES

“Vamos fechar este ano colocando no mercado 1 bilhão do doses de vacinas que estão sobre o manto do controle oficial, que são febre aftosa, raiva, brucelose e clostridiose, 80% das quais são rastreadas”, disse Emilio Salani, vice-presidente executivo do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos Saúde Animal (Sindan). “Estamos embarcando este ano R$ 60 milhões na rastreabilidade desses produtos.”

Neste sentido, Salani destacou a renovação da parceria com o Panaftosa, R$ 1,5 milhão, que vai beneficiar não apenas o controle da vacina de aftosa, mas estará à disposição das autoridades na avaliação de cobertura imunitária e circulação viral. “Desafio alguém a me dizer qual o produto que você ingere que tenha o controle e a rastreabilidade da vacina contra febre aftosa.”

O executivo do Sindan afirmou que o custo sanitário de um animal de 18/20 arrobas equivale a 2,5%, quando muito, 2,8%. “Está muito equilibrado e há muito tempo trabalhamos nessa faixa.” Atualmente, uma vacina contra febre aftosa é comercializada entre R$ 1,40 /R$ 1,50.

De acordo com o Salani, a produção da indústria veterinária no Brasil está muito bem adequada. “Estamos focados em profilaxia; nosso futuro aponta para vacinas, produtos biológicos na linha de organismos geneticamente modificados”, previu.

Ele contou que, na Reunião Extraordinária da Comissão Sul-Americana para a Luta contra a Febre Aftosa 2015 (Cosalfa), ao ser questionado sobre quando um país deve retirar uma vacinação, seja qual for, um palestrante respondeu que “a região ou país não deve falar, deve trabalhar arduamente, ver qual a sua condição de segurança e vigilância, e, sim retirar”.

Salani resumiu: “Se vocês estão seguros de que podem dar esse passo, a indústria de produtos veterinários dará o apoio e o suporte necessários.”

AVANÇO

Presente na abertura do fórum, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, lembrou que há cem anos o Brasil importava carne bovina e hoje é o maior exportador do mundo. Também mencionou que há 19 anos São Paulo não tem registro de febre aftosa. “Houve um avanço significativo, e embora só tenhamos 5% do rebanho total de bovinos no Brasil, ainda transita pelo Estado o gado para abate e terminação da engorda, portanto, ainda há possibilidade em relação à doença”, analisou o governador.

Para Alckmin, a proposta de vacinação mais espaçada para o gado adulto é interessante. “Até agradeço, porque lá em casa, em Pindamonhangaba (interior de São Paulo), quem vacina o gado sou eu mesmo”, comentou.

“Estamos aqui para debater o futuro e a erradicação total da aftosa. Por isto, trouxemos pesquisadores para acompanhar e contribuir no que for preciso; vamos fazer um trabalho coordenado, afinal, sanidade é questão central na pecuária, visto que o setor de proteína animal tem alcançado recordes no Brasil, especialmente no atual momento econômico”, disse Arnaldo Jardim, secretário de Agricultura do Estado de São Paulo.

Segundo Jardim, o governador Geraldo Alckmin tem mencionado a importância da agricultura e da pecuária brasileira. “O grande desafio é o aumento da produtividade, com foco na pecuária sustentável, o que será muito importante para nós e para todo mundo”, ressaltou.

“Valorizamos muito o fato de o Brasil incluir em sua estratégia nacional a Bolívia e o Paraguai, por uma lógica muito simples. Com a Bolívia, por exemplo, o Brasil tem 3,2 mil quilômetros de fronteira nos Estados com maior vocação pecuária, e, por esse motivo, temos que trabalhar de forma coordenada”, disse Carlos Peñaranda, membro do Giefa. “Porém, passamos por muitas dificuldades em nosso país, nesse setor, e sabemos que recuperar mercado é muito mais difícil do que conseguir mercados novos.”