Alternativas de uso para cultivares de processamento

A Embrapa Uva e Vinho realizou um dia de campo na Sede da Unidade, em Bento Gonçalves, RS, com o objetivo de divulgar as cultivares de uva para processamento desenvolvidas pelo Programa de Melhoramento Genético ‘Uvas do Brasil’: ‘BRS Bibiana’, ‘BRS Carmem’ e ‘BRS Magna’. Na ocasião, em visita aos vinhedos da Embrapa, os participantes conheceram as plantas e degustaram os vinhos elaborados com as cultivares, orientados pela equipe de pesquisa da empresa.

A ‘BRS Bibiana’ é uma cultivar de uva para elaboração de vinhos brancos aromáticos, com perfil enológico que remete ao vinho elaborado com uvas europeias, da espécie Vitis vinifera. Adapta-se melhor ao clima subtropical úmido da região da Serra Gaúcha e tem alta produtividade e demanda menos tratamentos fitossanitários para controle de podridões de cachos. De acordo com o pesquisador Mauro Zanus, “O vinho elaborado com a ‘BRS Bibiana’ tem uma coloração palha-claro, aroma fino, delicado, com acidez e sabor equilibrados; é elegante, tem notas que remetem aos vinhos finos de Sauvignon Blanc e pode harmonizar muito bem com pescados e carnes brancas”.

Com relação à já conhecida ‘BRS Magna’ cultivar de ciclo intermediário, com alto potencial produtivo, ela inicialmente foi indicada para elaboração de suco, mas também se mostrou bastante interessante para elaboração de vinhos, dado o alto conteúdo de açúcar, aroma aframboesado e matéria corante, que fazem da ‘BRS Magna’ uma cultivar completa, para elaboração de varietais e cortes com outras cultivares. Com potencial produtivo de 30 toneladas por hectare e grau glucométrico de 21º Brix, a ‘BRS Magna’ representa boa alternativa às variedades tradicionais de uva, garantindo ao viticultor uma melhor remuneração por ocasião da comercialização da uva às vinícolas.

Sobre o vinho elaborado com a ‘BRS Magna’, o pesquisador Zanus afirma que ele se apresenta como uma interessante opção para os vinhos tintos de mesa tradicionais. Tem coloração intensa, violácea – se assemelhando ao vinho de Bordô, embora menos intenso, com aroma e sabor frutados, típicos das cultivares americanas. O sabor é equilibrado, de boa acidez e persistente.

A outra cultivar apresentada no evento foi a‘BRS Carmem’, uma uva tardia, inicialmente desenvolvida para elaboração de suco com aroma e sabor lembrando framboesa. Tem alto potencial produtivo, sendo uma ótima opção para oferta de uva ao final da safra. A cultivar apresenta tolerância às principais doenças da videira, como o míldio, sendo uma boa alternativa ao cultivo orgânico.

“O vinho elaborado com a ‘BRS Carmem’ tem coloração brilhante, rubi intensa, de aroma com notas de morango, framboesa e frutas vermelhas. Surpreende pela fineza e delicadeza de paladar, com acidez refrescante e taninos macios, reunindo características intermediárias entre aqueles elaborados com uvas americanas e europeias”, acrescenta Zanus.

Maurício Fugalli, engenheiro agrônomo da Cooperativa Aurora já conhecia as cultivares destinadas para elaboração de sucos, mas não para vinho. Para ele seria interessante cortar o vinho da ‘BRS Magna’ com ‘BRS Carmem’, para aportar um sabor mais típico. Mas foi a proposta da ‘BRS Bibiana’ que mais lhe chamou a atenção: “É uma uva que faltava no mercado para compor o quadro dos vinhos que são mais baratos, que agregam uma característica de maior volume de venda por serem mais acessíveis e com excelente qualidade”. Para Edvaldo Moro Gallon, produtor de uvas e de suco integral em Bento Gonçalves, RS também gostou do evento: “Foi bastante enriquecedor ver in loco as uvas e conversar com os especialistas, tirando dúvidas e degustando os produtos”.

Para a pesquisadora Patrícia Ritschel, coordenadora do Programa de Melhoramento Genético Uvas do Brasil, a realização de eventos para apresentar novos produtos elaborados com as cultivares desenvolvidas pela Embrapa é sempre uma oportunidade para conversar com os produtores e saber de suas dificuldades e demandas: “Ouvir a avaliação que os viticultores fazem sobre o trabalho que desenvolvemos, neste caso, sobre as cultivares para processamento e seus derivados, nos leva a conhecer as dificuldades que eles estão enfrentando no dia a dia e nos estimulam a pensar em novas formas para contribuir com a solução destes problemas”.

Com essas três novas opções, as vinícolas têm diante de si a possibilidade de enriquecer o seu portfólio de sabores, atendendo aos consumidores modernos, que buscam novas experiências sensoriais e que também estão atentos aos processos produtivos mais sustentáveis.